O que vem do AR

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O Pelo 3º ano consecutivo selecionámos os filmes que compõem a programação com uma coisa em mente: um festival de cinema deve ser uma tomada de posição sobre formas de ler o mundo. Foi assim que o AR se dividiu em duas secções complementares, que têm a linguagem como epicentro.

O AR nas Bibliotecas de Lisboa (uma ideia apoiada pelas Bibliotecas de Lisboa) é uma proposta que leva o cinema de autor à recentemente inaugurada Biblioteca de Marvila e tem como foco da programação cinco filmes atuais que dialogam com obras literárias. Graças ao apoio de Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-Americana de Cultura 2017, teremos o privilégio de contar com a presença dos cinco realizadores argentinos para que apresentem os seus filmes e, também, de convidar cinco realizadores portugueses que os acompanharão numa conversa. Eventualmente, o que significa ter um livro como ponto de partida para um filme? As perguntas que contêm respostas múltiplas são, quase sempre, uma boa premissa. Fica o encontro marcado. La Idea de un Lago de Milagros Mumenthaler parte da estrutura poética de Pozo de Aire de Guadalupe Gaona, Hermia & Helena de Matías Piñeiro dialoga livremente com Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare, La Larga Noche de Francisco Sanctis de Andrea Testa e Francisco Márquez traça a fundo uma das linhas, deixando latentes outras, da obra homónima de Humberto Constantini. A quase impronunciável Kékszakállú de Gastón Solnicki apoia-se, para soltá-la depois, na partitura dramática do libreto de O Castelo do Barba Azul de Béla Bartok e Solar de Manuel Abramovich acompanha a conflituosa reedição de Vengo del Sol de Flabio Cabobianco. E não sabemos onde acabam os livros e começam os filmes e vice-versa.

A secção Panorama, a ser exibida no Cinema São Jorge, em conjunto com cinco curtas-metragens, parte do projeto Archivos Intervenidos, produzido pelo Museo del Cine de Buenos Aires, surge como rutura e continuidade desta relação do cinema com a linguagem. São cinco filmes contemporâneos de cineastas que se movem com destreza dentro dessa inquietação que caracteriza o atual cinema argentino. No documentário, El futuro perfecto de Nele Wholatz acompanha uma emigrante chinesa que aprende castelhano e reescreve, noutro idioma, a sua história. Las Calles de María Aparicio contanos como uma professora e respetivos alunos dão nomes às ruas da sua cidade. Na ficção, viajamos ao centro de um dos bairros mais especiais de Buenos Aires através de El Rey del Once de Daniel Burman, cujo protagonista é um filho que tenta encontrar o pai, judeu ortodoxo, e, pelo caminho, reencontra o bairro e as suas idiossincrasias. Primero Enero de Darío Mascambroni leva-nos ao interior da província de Córdoba e, novamente, a relação de pai e filho, a linguagem simples mas astuta dessa correspondência cheia de arestas. Finalmente, La Cumparsita de Raúl Perrone conta uma história clássica mas faz implodir os cânones da linguagem cinematográfica convencional.

Duas mãos cheias de cinema que criam os seus próprios mundos e imaginários de alcances elásticos que nos dizem e contradizem. E ainda bem.

 

Maria João Machado e Susana Santos Rodrigues